Pessegueiros em Flor, de Van Gogh: a pintura que virou uma despedida
Por volta de 30 de março de 1888, Van Gogh passou o dia fazendo algo que havia se tornado quase uma obsessão desde que chegara a Arles.
Pintar árvores em flor.
Naquela primavera, os pomares do sul da França haviam tomado conta de sua atenção. Pessegueiros, damasqueiros, pereiras. Van Gogh saía quase todos os dias em busca de novos motivos e, em poucas semanas, produziu cerca de 14 pinturas, além de desenhos e estudos de árvores floridas.
Naquele dia, terminou um pessegueiro coberto por pequenas flores rosadas.
Era uma cena luminosa. Céu claro. Grama verde. Uma árvore jovem ocupando quase toda a composição.
Nada naquela pintura parecia anunciar tristeza.
Até Van Gogh voltar para casa e encontrar uma carta.
A notícia havia levado semanas para chegar
A carta era de sua irmã Willemien.
Ela trazia a notícia da morte de Anton Mauve.
Mauve havia morrido em 5 de fevereiro de 1888. Van Gogh, vivendo em Arles, soube da morte apenas semanas depois, justamente no período em que trabalhava nos pomares em flor.
A pintura que havia começado como um estudo da primavera acabava de ganhar outro significado.
Van Gogh decidiu que aquela obra seria para Mauve.
Pessegueiros Rosas em Flor, de Vincent van Gogh
Título: Pink Peach Trees (Souvenir de Mauve)
Título em português: Pessegueiros Rosas em Flor (Lembrança de Mauve)
Artista: Vincent van Gogh
Data: cerca de 30 de março de 1888
Local: Arles, França
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 73 × 60 cm
Localização atual: Kröller-Müller Museum, Otterlo, Países Baixos
Antes de Van Gogh ser Van Gogh, Mauve o ensinou a pintar
Anton Mauve não era apenas mais um artista conhecido por Vincent.
Era parente por casamento e, sobretudo, uma das pessoas que ajudaram Van Gogh quando ele ainda estava tentando descobrir como se tornar pintor.
No início da década de 1880, Mauve já era um artista respeitado da Escola de Haia. Van Gogh ainda estava aprendendo.
Foi Mauve quem o orientou no uso da aquarela e da tinta a óleo, duas técnicas fundamentais para o desenvolvimento do jovem artista.
A relação não permaneceu simples. Houve aproximação, admiração e também afastamento.
Mas isso não apagou o que Mauve havia representado no início da trajetória de Vincent.
Ele escreveu diretamente sobre a pintura
Van Gogh acrescentou uma dedicatória à tela:
Souvenir de Mauve
Vincent & Theo
Ele incluiu o nome do irmão na homenagem e escreveu a Theo explicando que, se o irmão concordasse, enviariam a pintura à viúva de Mauve, Jet Mauve, em nome dos dois.
Mas o trecho mais revelador vem logo depois.
Van Gogh explicou por que havia escolhido justamente aquela pintura.
Para se lembrar de Mauve, precisava de algo que fosse terno e muito alegre.
Não de uma obra mais grave. Não de uma paisagem de luto.
Uma despedida que não parece despedida
Sem conhecer a história, quase ninguém associaria essa pintura à morte.
Há verde. Há azul. Há flores. Há uma árvore em pleno florescimento.
Van Gogh escolheu representar Mauve não através da ausência, mas através de uma imagem de vida.
Isso torna Souvenir de Mauve uma homenagem incomum.
Ele não parece dizer: “alguém morreu”.
Parece dizer: “alguma coisa permanece”.
E Van Gogh escolheu uma de suas melhores pinturas
Van Gogh não pegou qualquer estudo que tivesse à mão.
Na carta a Theo, explicou que havia escolhido deliberadamente o melhor estudo que havia feito em Arles até então para transformá-lo no presente destinado à família de Mauve.
Isso diz muito sobre a importância da homenagem e também sobre a confiança que ele começava a sentir em relação às pinturas feitas no sul da França.
Van Gogh estava numa “fúria de trabalho”
A primavera de 1888 parece ter provocado nele uma corrida contra o tempo.
As árvores floresciam por poucos dias. Depois mudavam. As pétalas caíam. O motivo desaparecia.
Em poucas semanas, ele pintou uma sequência inteira de pomares floridos.
O vento de Arles era tão forte que dificultava pintar ao ar livre. Van Gogh chegou a contar que precisava amarrar o cavalete a estacas cravadas no chão para continuar trabalhando.
Mesmo assim, continuava. A paisagem mudava rápido demais para esperar.
Os pomares eram uma espécie de Japão francês
Van Gogh era profundamente fascinado pelas gravuras japonesas.
Quando chegou ao sul da França, passou a imaginar aquela região como uma espécie de equivalente europeu do Japão que conhecia através das imagens.
Os pomares em flor ajudavam nessa associação: árvores delicadas, galhos recortados, cores claras e composições que se afastavam da perspectiva acadêmica tradicional.
Os pomares de Arles não eram apenas estudos botânicos. Faziam parte de uma transformação maior na maneira como Van Gogh enxergava a pintura.
Há várias árvores em flor. Mas esta é diferente.
Durante aquele curto período, Van Gogh produziu diversas pinturas de pomares.
É fácil confundir Souvenir de Mauve com outras obras da mesma época.
Há pomares brancos, rosas, pessegueiros, damasqueiros e pereiras.
Mas apenas uma delas recebeu a inscrição:
Souvenir de Mauve.
E ele pintou outra versão
Pouco depois, Van Gogh decidiu fazer uma repetição de Pessegueiros Rosas em Flor.
As cartas mostram que essa segunda versão seria destinada a Theo, enquanto a primeira permaneceria reservada para Jet Mauve.
Esse detalhe ajuda a entender uma característica importante do processo de Van Gogh.
Ele frequentemente voltava ao mesmo motivo. Não necessariamente para copiar, mas para testar outra solução, outra cor e outra maneira de organizar aquilo que havia acabado de descobrir.
A pintura realmente chegou à viúva de Mauve
A intenção de Van Gogh não ficou apenas na carta.
Meses depois, em novembro de 1888, ele escreveu a Theo dizendo que havia finalmente recebido uma carta de Jet Mauve agradecendo pela pintura.
A obra começou em um pomar no sul da França, recebeu uma dedicatória depois de uma notícia de morte, foi enviada para os Países Baixos e chegou às mãos da família da pessoa que Van Gogh desejava homenagear.
Não era apenas uma obra “sobre” Mauve.
Era realmente um presente para quem havia ficado.
O detalhe mais curioso está escrito na própria tela
Quando vemos a pintura de longe, é fácil prestar atenção apenas à árvore.
Mas a dedicatória é parte física da obra.
Van Gogh não contou essa história apenas nas cartas.
Ele registrou a memória diretamente na pintura.
Souvenir de Mauve.
Essas palavras transformam tudo.
Por que usar uma imagem alegre para falar de morte?
Talvez essa seja a pergunta mais interessante de toda a obra.
Van Gogh poderia ter escolhido uma paisagem cinzenta. Poderia ter procurado um motivo melancólico.
Não fez isso.
Escolheu um pessegueiro em flor.
E explicou exatamente por quê: lembrar Mauve exigia algo terno e alegre.
Uma homenagem não precisava representar a morte.
Poderia representar aquilo que continuava vivo na memória de quem permanecia.
Então, o que significa Pessegueiros em Flor?
A pintura nasceu antes da homenagem.
Isso é importante.
Van Gogh não saiu de casa pensando que faria um memorial para Mauve. Ele saiu para pintar a primavera.
A notícia chegou depois.
E foi justamente por isso que o quadro ganhou tanta força.
A árvore já estava florescendo quando Van Gogh soube da morte.
Ele não precisou inventar um símbolo.
A imagem já estava diante dele.
Há uma diferença enorme entre esquecer a morte e escolher lembrar a vida
Talvez seja isso que Van Gogh tenha feito naquela noite.
Ele recebeu uma notícia triste, olhou novamente para a pintura que havia terminado e decidiu que aquela árvore seria a lembrança de Mauve.
Hoje, mais de um século depois, o nome continua escrito ali.
Souvenir de Mauve.
A árvore continua florescendo.
E Mauve continua fazendo parte da história toda vez que alguém descobre por que aquelas palavras foram colocadas sobre a tela.
Van Gogh queria uma lembrança que fosse terna e alegre.
Foi exatamente isso que criou.
Curadoria e pesquisa: Warlley Sousa
Referências
Kröller-Müller Museum. Pink Peach Trees ('Souvenir de Mauve').
Vincent van Gogh: The Letters. Cartas de março e abril de 1888 relacionadas aos pomares de Arles e à homenagem a Anton Mauve.
Imagens históricas e reproduções de obras: Wikimedia Commons, em arquivos de domínio público ou com licenças indicadas nas respectivas páginas.